Ananias Ferreira
  um mestre da capoeira
Ananias Ferreira nasceu em 1924 em São Félix (BA), região de forte influência africana que tem na Capoeira, no Samba e no Candomblé um dos alicerces da cultura popular brasileira. Na infância, Ananias brincou e compartilhou desse universo. Em suas lembranças, Ananias falava de um senhor que tocava berimbau de imbé, ou cipó caboclo, o Mestre Juvêncio e também de seus companheiros de roda: os irmãos Toy e Roxinho, Caial, Estevão, João de Zazá, Café e Vito. Ele lembra também de Inácio do Cavaquinho (que fazia samba com seu pai) e da roda de capoeira que armavam na venda do Seu Mané da Viola em Muritiba na rua do “Caga à Toa”. 
Samba de roda do grupo Samba sem vintém, 2011 © Carla Bispo \ OFFICE CAMARA CLARA ​​​​​​​
Da lavoura à Capoeira
Quando jovem, Ananias trabalhou na lavoura de cana e nas indústrias de fumo. Foi para Salvador em busca de melhores condições de vida. Na capital baiana, morou nos bairros do Engenho Velho de Brotas, Curuzu e Liberdade, onde é acolhido por um dos grandes mestres da Capoeira, Valdemar da Liberdade, sua maior influência. Deste momento em diante passa a ser responsável pela bateria junto a Bugalho, Zacarias e Mucungê. Nessa época de formação da Capoeira (que se apresenta hoje) conviveu com grandes nomes como Mestres Pastinha, Nagé, Onça Preta, Noronha, Dorival (irmão de Mestre Valdemar), Traíra, Cobrinha Verde, Canjiquinha – de quem recebeu seu diploma - e tantos outros. Foi ali no Corta-Braço (assim é conhecida a região onde se localizava o Barracão do Mestre Valdemar) que os produtores Wilson e Sérgio Maia buscaram Mestre Ananias, Evaristo, Félix e algumas baianas para trabalhar na cena teatral paulistana.

O patrimônio espiritual e estético do negro brasileiro na cena teatral paulista
Na década de 50, em São Paulo, junto a Plínio Marcos e Solano Trindade descoberto pela cena teatral paulistana, Ananias contribuiu para dar visibilidade à riqueza do patrimônio espiritual e estético do negro brasileiro. Sacudiu os teatros paulistanos (Municipal, Arena, São Pedro, TAIB, São Paulo Chic, entre outros) com os sambistas Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Zeca da Casa Verde, Talismã, Jangada, Silvio Modesto, João Valente, João Sem Medo e outros batuqueiros. 
Atuou na peça Balbina de Iansã, em 1970, e em Jesus Homem, em 1980 (ambas de autoria de Plínio Marcos. Esteve no elenco da primeira encenação de O Pagador de Promessas (dirigida no TBC por Flávio Rangel em 1960) e teve participação na trilha sonora da filmagem deste enredo, em cartaz nos cinemas dois anos após. Também participou dos filmes Brasil do Nosso Brasil (produzido por Xangô), Fronteira do Inferno e Ravina (de Anita Castelane) e fez gravações com Jair Rodrigues, entre outros.

Pioneiro entre os capoeiristas a estabelecer residência na terra da garoa, Mestre Ananias se manteve em plena atividade e foi uma enorme influência para gerações na tradição da Capoeira Paulistana e o representante do Samba de Roda do Recôncavo Baiano na capital. 
Em mais de meio século, conviveu com grandes capoeiristas baianos que viveram e passaram por São Paulo, como Zé de Freitas, Limão, Valdemar (do Martinelli), Hermógenes, Gilvan, Silvestre, Paulo Gomes, Suassuna, Brasília, Joel e muitos outros. 

Ananias Ferreira:  figura emblemática da cultura afro-brasileira

Ao longo de uma vida extensa ─ com tenacidade e carisma ─ manteve viva a mais pura ancestralidade no moderno coração da maior cidade do Brasil. Foi o representante mais significativo entre os criadores de uma instituição que se mantém há mais de meio século: a roda de capoeira dominical da Praça da República em São Paulo. Uma autêntica ágora, espaço de resistência, de confronto e diálogo dos talentos e dos estilos mais diversos, e também de aprendizagem. Poucos capoeiristas na cidade de São Paulo não conheceram de perto esta roda ou estiveram cientes da oportunidade de entrar livremente nela. Esta instituição é a emanação do carisma de uma pessoa, Mestre Ananias, cujo axé inscreveu-se na vitalidade coletiva e num lugar altamente simbólico, compatibilizando a liberdade informal da rua com a urbanidade dos costumes. Mestre Ananias morreu no dia 21 de julho de 2016, em São Paulo, numa madrugada de quinta-feria.

Back to Top